Ser adulto é chato

Tenho saudades de dizer frases como “Ai estou tão aborrecida, não tenho nada para fazer”. Ou tipo “Já não tenho séries para ver”. Ou a minha preferida “Vou-me embora que já tenho o corpo maçado de estar deitada na areia ao sol”. Com honestidade, não faço puto de ideia quando foi a última vez que disse tal obscenidade. Nos dias que correm, a coisa mais parecida com isto que digo deve ser “Estou aborrecida de lavar tanta loiça” ou então “Vou-me deitar no chão que tenho o corpo maçado do dia” – isto é o mais parecido a uma massagem possível.

Ora, vamos fazer as contas. Trabalho a tempo inteiro. Cozinhamos jantares e almoços (e não, não levo uma sandes). Uma criança cá fora. Outra criança no bucho. Loiça pra lavar. Loiça para arrumar. Roupa pra lavar. Roupa para arrumar. Camas pra fazer. Casa para limpar. Tomar banho, quando consigo. Pronto, assim por alto, o dia começa aí às 6:30 e acaba quando a miúda vai para a cama às 20. Depois é tudo nosso, uhhuhh, vamos virar a casa. Ah não, é mesmo só tentar não adormecer às 20:30 no sofá.

Sempre que me apercebo do trabalhão que dá ser adulta, lembro-me da minha inocência dos 16 a achar que isto ia ser altamente! Uhhuhh, gandas festas! Uhhuhh, os amigos sempre lá batidos pra bebermos umas fortes! Uhhuhh, vai ser a lócura! Boohoo, cala-te parvalhona e deixa-te estar quietinha aí deitada na caminha enquanto a mamã faz o franguinho com alho e as batatinhas fritas para o jantar da menina, ok?! Que se tu soubesses o trabalho que dá pelar as batatas fininhas dessa forma, fritar 5 frigideiras e depois ter que limpar o fogão todo do óleo que espirrou, até beijavas as mãozinhas da mamã.

Isto pra dizer: dá trabalho crescer. Não é aquele Mundo de algodão cor de rosa que imaginamos. O que nós aproveitávamos se soubéssemos disto não é? Os adultos bem nos tentam dizer mas a adolescência tem muita ingenuidade. Quando os nossos filhos crescerem e nos disserem que estão ansiosos por ser adultos nós já combinámos, vamos rir à grande na cara deles. Mas mesmo tipo loucos. Não vai haver cá floreados para ninguém! Até os deixo fazerem um franguinho com batatas fritas para nós enquanto nós relaxamos no sofá, para ver se eles gostam. Corro é o risco de nunca mais me saírem de casa.

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Esperei-te

De todas as pessoas que amo na vida, tu foste a única que sabia que ia aparecer, antes mesmo de chegares. Antes que algum teste me pudesse dizer isso, eu já sabia que ia ser tua mãe. Os nossos corpos falam sempre connosco, se soubermos ouvir o que eles nos querem dizer. E no meu caso, tu gritavas. Não sei se tinhas medo que não estivesse à tua espera e depois me assustasse quando descobrisse. Mas não te preocupes, que eu estive à tua espera a vida toda.

Esperei-te como quem espera um amor que foi para a guerra. Como quem espera um pai voltar do trabalho. Esperei-te com calma e fé, porque sabia que vinhas. Até podia dizer que sabia que não ia esperar mais que uns dois meses mas aí já parece maluquice. Esperei-te sem pressa de te sentir ou de te ter nos braços. Apenas com a serenidade de saber que eras minha, inevitável e eternamente minha. Mesmo quando fosses de mais pessoas, serias sempre minha.

De todas as coisas que eu te dei, tu foste quem mais me deu. Deste-me amor. Puro, sem questões, sem vírgulas. Deste-me amor sem “Mas”, sem reticências nem limitações. Deste-me amor que se multiplica por dois, por dez, por mil. E apareceste logo assim, a fazer-te ouvir, mesmo ainda sem voz para falar. O amor que me deste é tão forte, que chega para todas as outras pessoas na minha vida. É este o poder que os filhos têm.

Não tive que esperar muito por ti. Por mim prometo-te que não tens que esperar nada. Estou prontíssima para ti. Para te dar tenho – amor, um colo quentinho, um pai que te vai fazer a criança mais feliz do Mundo e uma irmã que adora beijinhos. Vem com calma que nós não temos pressa. Mas vem com a certeza que antes de existires, já fazias parte desta família. Quando estiveres pronta, estamos aqui todos deste lado para te conhecer.

California Girls

A coisa que mais queria da faculdade era viver. Tinha uma sede incrível daquilo que sentia que tinha perdido até àquela altura: eu própria. Digo, com toda a certeza que tenho neste momento, que o que a faculdade me deu menos foi conhecimento. E ao ir atrás de mim, quem encontrei, fez comigo esse caminho. O caminho mais louco, mais honesto e mais sensível. E ela esteve sempre lá.

Acho que toda a gente entende isto. Há, na Universidade, um laço especial que se cria com aquela miúda que bebe connosco. Que ri connosco, que chora pelas nossas dores. A minha tem o sorriso mais rasgado do Mundo. Fiquei caídinha por ela no segundo em que a vi. Barulhenta. Vendavala. Que grita “Foda-se” do outro lado do páteo quando não a ouvimos mas que depois fica sem jeito quando algum homem se mete com ela no bar. Daquelas que dispara sem ouvir primeiro e depois vem perguntar se eu acho que ela fez mal.

Chegou uma altura em que deixei de perceber onde ela começava e eu acabava. Passava mais noites na casa dela do que na minha. A nossa roupa já andava toda misturada. Com um olhar dizíamos tudo uma à outra. Se ela saía eu saía. Se eu ficava a estudar, ela ficava também. Ela foi a última relação destas que eu criei. Tenho a sorte de ser abençoada com amigas de infância. E depois dela, na Universidade, não houve espaço para mais ninguém. Sei lá, parece que já não se tem espaço para estas relações que nos marcam para a vida.

Depois, o destino mete-se no meio e divide-nos por caminhos diferentes. Ambas sabemos o que somos uma para a outra então, se for preciso, ficamos 6 meses sem falar. Mas no dia em que penso nela, aquilo que sinto no peito é tão forte que é como se não estivéssemos estado sem falar nem um dia. Dizem que a Califórnia está cheia de pessoas deste género, cativantes, especiais e as mais interessantes do Mundo. Conheci a minha Califórnia Girl na Universidade. Mas há-de me ficar no coração para sempre.

Mães vs Grávidas

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Neste preciso momento tenho muita amiga grávida. Acho que houve qualquer coisa no ar em 2018 e aquilo pegou que nem fogo posto, foram poucas as que se escaparam. É difícil estar grávida. É um tempo sensível, de muita incerteza, muitas expectativas e de muita aprendizagem. Nós confiamos que o nosso corpo sabe o que faz e tentamos fazer o melhor que conseguimos (e, principalmente, podemos!) por aquele ser que já amamos tanto.

Nesta altura, tudo o que faz menos falta são os palpites das outras mães. É uma coisa impressionante mas é assim: no que toca à gravidez, as outras mães perdem a noção. Parece que há ali uma competição mázinha para ver quem é que fica por cima. A grávida queixa-se de não dormir bem e a mãe só tem duas respostas: “Ai, ainda agora tu não sabes o que é ter sono”ou “Ai eu cá não sei o que é isso, que o meu Afonso NUNCA deu problemas, nem dentro da barriga nem fora”. A grávida diz que ainda não engordou muito e a mãe diz uma das duas: “Ai, mas não te preocupes que vais engordar bem quando for o fim vais ver, eu fiquei com mais 20 quilos” ou então “Ai, a prima do meu marido também não engordou nada e depois viu-se negra para perder a barriga, ficou com aquilo tudo descaído, nem a cinta a salvou”.

Pronto, então agora, assim, de repente, estes vossos comentários ajudam a quê mesmo? É pra preparar a grávida, é isso? Mas é para prepará-la para as experiências dos outros, não é? Porque cada gravidez é uma gravidez e ninguém prevê o futuro ainda, que eu saiba. Então e vocês, mães, quando estavam grávidas, gostavam que vos viessem com estas histórias de terror? Épa, não me parece. E não me venham com aquela falsa honestidade do “Pelo menos só eu é que tenho coragem de contar as coisas como elas são” porque isso não é coragem, isso é falta de noção mesmo. Existem formas de partilhar a vossa experiência sem aterrorizar as outras grávidas, ok?

Por isso, mães, se não fôr para dizer coisas do género: “Vais ver que vai correr tudo bem”, ou “Quando chegar a hora logo vês o que é o melhor para ti e para o teu bebé”, ou “Pode ser que ele seja bonzinho e não te dê muitas noites más” ou mesmo até “Mesmo que doa um bocado vais ver que quando vires a carinha do teu bebé, o amor que vais sentir naquele momento faz-te esquecer as dores”. Se não for para usar uma destas variantes, se calhar o melhor é estarem caladas. Que, não só as grávidas, mas o Mundo todo agradece.

Na pele dói sempre mais

Toda a gente sabe, antes de ter filhos, que os vai amar. Mesmo quem não tem interesse nenhum em ter filhos sabe que, caso os quisesse ter, de certeza que ia gostar deles. A menos que deteste crianças e pronto, eu também não estou cá para julgar ninguém, cada um é como é. É esta noção de que iremos um dia amar os nossos filhos que nos faz capazes de relacionar quando, por exemplo, um amigo tem o filho doente. Temos a certeza que também nos ia custar ver o nosso doente.

Mas o pequenino passo que divide este “saber” e o “sentir” é só gigante. Nada se sabe até se sentir de facto. Podemos imaginar. Podemos relacionar com qualquer coisa. Mas até ser na nossa pele, a coisa não tem o mesmo impacto. Como é óbvio, tenho a miúda doente. Não é nada muito grave, ainda bem, e todo o meu cérebro de mulher moderna e inteligente sabe justificar isto. “Faz parte do crescimento”. “Os infantários são máquinas de germes”. “Ela vai ter que desenvolver as defesas dela sozinha e não há nada que possamos fazer, é mesmo assim e todos passam pelo mesmo”.

E no entanto tenho o coração do tamanho de uma migalha de pão. Tipo, daquelas que nem sequer vamos apanhar no fim de uma refeição boa, de tão pequenina que é. Parte-se-me o coração de vê-la assim, com as bochechas todas vermelhas da febre, olhos lacrimosos, sem apetite e sem energia. Acho que o médico ontem ficou com vontade de me dar um abraço e mandou-me ter força. Já desejei umas trinta vezes que passasse aquilo pra mim em vez da miúda, coitadinha da minha bebé.

É que enquanto ela não fica bem parece que o meu próprio corpo se esqueceu que também tem a função de cuidar de mim. Nem durmo bem nem consigo descansar a cabeça. Tenho o cabelo numa desgraça e a minha cara mete medo ao susto. Ao menos não sou a única, que o Tiago também não está muito melhor encarado. Juntos na sauúde e na doença. Eu já tinha noção que me ia custar ver um filho doente. Mas na pele dói sempre mais.

Emigração 6.0

Acordei nostálgica hoje. Se calhar porque acordei incrivelmente cedo e dormi estupidamente mal. Quando se tem filhos sabe-se que nós só estamos tão bem quanto eles estão e a minha pequenina tem dentes a descer pelo que, estamos como é possível. Mas não é por isso que estou nostálgica. É porque hoje é um dia especial. Normalmente tiro o dia de hoje para agradecer ao país que nos acolhe todos os dias. Mas hoje quero tirar este dia para mandar força a todos aqueles que estão longe de quem amam.

Seja por que motivo for. Existem decisões que são tomadas com bastante vontade e outras com menos vontade. Gente que está super bem instalada naquele que, agora, já é o seu país. Gente que vive realmente bem. Gente que tem apenas o suficiente para viver. Nem todos comem da lata para depois ir conduzir o BMW em Portugal. Mas também nem todos chegaram lá, abanaram uma árvore e apanharam o dinheiro que caiu dela. Como quem não é emigrante pensa.

Mas há uma coisa que nos é comum a todos. Basta apenas ter deixado alguém que se ama no país de onde se veio. E todos sentimos a saudade da mesma forma. Por melhor ou pior que tenha sido a nossa semana. Todos vemos as rugas novas que apareceram sem sabermos na cara de quem amamos. Conhecemos as pessoas novas das vidas deles, que não nos reconhecem. E, ao conversar com eles, percebemos a quantidade de coisas que não acompanhámos. Um sinal de que o tempo nos está a fugir das mãos.

O bonito do amor é que ele é teimoso para morrer. O ódio e a raiva são mais expontâneos mas depressa gastam a energia que têm. O amor não. Fica ali, como uma árvore antiga com raízes enormes. Daquelas que vemos que precisava de um bocadinho de atenção mas que não vai sair dali nem no próximo século. É isto que a distância não apaga nem enfraquece. A nossa eterna capacidade de amar aqueles que sempre amámos.

Olhão

Não sei para onde vou mas sei de onde venho. Venho do mar. Venho da areia nos pés descalços. Venho da brisa húmida que deixa um sabor salgado nos braços. Venho da simplicidade de um vestido, sem enfeites nem maquilhagens. Venho sem ligar ao cabelo, encaracolado e sem dar conta dele. Venho de pele moída do sol do dia, arrepiada pela brisa do anoitecer.

Venho do mar. De um sítio onde se lava o sal do corpo no chuveiro dos vizinhos se tiver que ser. De um sítio onde aparece sempre alguém que traz peixe fresquinho para o almoço. Ou uma sapateira e um pack de minis para o jantar. Venho de um sítio onde se comem petiscos no café. E onde a comida dá sempre para mais um. Venho do peixe grelhado, das caldeiradas e de tudo o que é marisco.

Venho do mar. De onde os miúdos se beijam entre as portas dos prédios, como se as vizinhas não os conseguissem ver. De um sítio onde ninguém tem segredos, toda a gente sabe a vida de toda a gente. Venho de um sítio onde não é preciso muito para ser feliz. Onde qualquer saco de cama e geleira, faz uma festa na praia. Venho de um sítio onde a maior parte das crianças nunca andou de avião. Porque não precisam de ir procurar a outras cidades o que têm à porta de casa.

Venho do mar. De um sítio onde ninguém aprende a falar baixo. É tudo aos gritos, tudo com paixão. Ou se ama ou se odeia. Onde não há espaços para “fazer de conta” que se gosta de alguém. Venho de pessoas que não gostam de frio nem chuva. De um sítio onde o Verão dura 8 meses e a nossa pele mostra isso mesmo. Venho de um sítio plantado mesmo aos pés do mar. E venho de lá com o maior orgulho do Mundo.